Como bloqueámos a Cimeira OMC em Seattle
Ciências Humanas e Sociais

Como bloqueámos a Cimeira OMC em Seattle


Uma acção não-violenta que ficou na história


(Tradução para português do texto publicado no Le Monde Libertaire de 6 de Janeiro de 2000, de autoria de Starhawk e tradução francesa da conhecida cientista belga Isabelle Stengers)


Como nós bloqueámos a Cimeira da OMC em Seattle

Duas semanas já passaram desde aquela manhã em que me levantei antes de me juntar ao bloco que impediu o encontro inaugural da Organização Mundial do Comércio. Desde a minha saída da prisão que leio as revistas de imprensa para tentar compreender o que é que realmente se passou e o que foi relatado pela imprensa.
Durante a manifestação de protesto tivemos a rara ocasião de sentir que aquilo que dizíamos – “o mundo inteiro olha-nos” – era realmente verdade. E realmente não me lembro de nenhuma acção política que tenha atraído tanta atenção dos media como aquela em que fomos protagonistas. Mas o que foi relatado pelo mundo fora através dos media continha tantas incorrecções que eu ainda agora me pergunto se os jornalistas não deveriam ser acusados de conspiração ou, muito simplesmente, de incompetência. Ninguém dúvida que foram partidas algumas montras de lojas, mas tal não se deveu ao “Direct Action Network” (DAN) que foi o grupo que organizou a acção directa não violenta e que conseguiu reunir alguns milhares de pessoas.
A verdadeira história que explica o sucesso da nossa acção nunca foi contada.
A polícia, que reagiu de maneira brutal e estúpida à situação, desculpou-se que não se encontrava preparada para a violência. Mas, na realidade, o que não estavam preparados era realmente para a não-violência e ao grande número de activistas não-violentos – e tudo isto muito embora todas as nossas reuniões tivessem sido abertas, públicas e sem segredo algum.
Suspeito que a nossa maneira de organização e tomada de decisões era de tal forma estranha para o entendimento habitual da polícia sobre o que é uma manifestação ou a direcção de um movimento que eles não compreenderam absolutamente nada do que estava a passar.
Os polícias quando pensam numa organização imaginam logo uma pessoa ou um pequeno número de pessoas a dizer aos outros o que deviam fazer. Estão habituados ao poder centralizado que exige uma obediência cega.
Mas o nosso modelo de organização é muito diferente. Vejamos em quê.
Durante semanas inteiras que precederam a manifestação em Seattle, centenas e milhares de activistas receberam treino acerca da não-violência – cursos de três horas que abrangiam desde história à filosofia da não-violência, incluindo práticas de “role-playing” (=jogo teatral) que pretendiam preparar as pessoas para se manterem calmas, tranquilas e serenas nos momentos de maior tensão, treino de tácticas não-violentas face à brutalidade, e sensibilização e preparação para os processos de decisão colectivos. Alguns seguiram ainda uma preparação específica relativamente à provável curta estadia nas prisões com estratégias e tácticas diversas de solidariedade e ajuda mútua, sem esquecer os aspectos judiciais. Houve também treinos de primeiros socorros, tácticas de bloqueio, teatro de rua, simulação de confrontos, e de outras eventualidades.
Durante a manifestação, enquanto milhares de pessoas se manifestavam e enfrentavam situações imprevistas sem qualquer preparação, as pessoas que tinham recebido aquele treino foram as que melhor souberem fazer face à brutalidade policial tendo conseguido gerar instantaneamente uma rede de resistência. Até na prisão assisti a situações copiadas das que nos tínhamos preparado no “role-playing”. Os nossos activistas foram capazes de proteger todos os elementos do grupo que corriam o risco de serem isolados ou separados dos restantes utilizando as tácticas previamente treinadas para o feito. Estas tácticas de solidariedade foram imensamente úteis para evitar a consumação dos actos de abuso do poder.
Recorde-se que foi exigido a cada activista-voluntário aceitar os princípios básicos da não-violência: abster-se de violência física e verbal, não possuir armas, não andar com drogas ilícitas nem beber álcool, nem destruir bens privados. Estas exigências apenas diziam respeito às manifestações a serem realizadas em 30 de Novembro, e não pretendiam ser os ingredientes de qualquer filosofia de vida ou de grupo a que se pedisse adesão. Tanto mais que havia opiniões muito divergentes acerca dessas matérias entre os vários activistas envolvidos.
Os participantes da acção estavam organizados em grupos de afinidade. Cada grupo estava habilitado (empowered) a tomar as suas próprias decisões quanto ao modo de participação. Houve grupos que realizaram teatro de rua, outros prepararam-se para se prenderem a edifícios com correias, outros ainda trouxeram gigantones e caricaturas gigantes, e os restantes aprontaram-se muito simplesmente para de braço dado se postarem frente aos carros oficiais a fim de impedirem de modo não-violento a sua circulação.
Em cada grupo havia geralmente pessoas que estavam já preparadas para irem parar à prisão, outras que cá fora lhes prestariam apoio, e ainda alguém qualificados em matéria de primeiros socorros.
Os grupos de afinidade estavam organizados em clusters. A área envolvente ao Centro de Convenções foi dividida em 13 secções, os grupos de afinidade e o seu cluster foram repartidos por cada secção.
Havia igualmente «grupos móveis» que se deslocavam aonde a sua presença era mais requisitada. Tudo isto foi coordenado nos encontros do Conselho dos porta-vozes de cada grupo de afinidade que enviava um(a) representante que falava em nome do seu grupo.
Na prática, este tipo de organização significava a possibilidade dos grupos se deslocarem e reagirem com grande facilidade. Caso fosse necessário mais gente num determinado local, um grupo de afinidade podia avaliar a situação e decidir a sua deslocação, ou não, em função das informações que lhe chegavam. Nos momentos em que se tinha de aguentar os gazes lacrimogéneos, os jactos de água, as balas de borracha, e as arremetidas dos cavalos, cada grupo tinha capacidade de avaliar até que ponto podia oferecer resistência à brutalidade desencadeada.
No terreno, o que aconteceu foi que os grupos encontraram uma inacreditável violência policial, mas quando um grupo estava em dificuldade derivadas do gaz lançado, ou dos ataques de bastões, outro grupo imediatamente se posicionava para o seu lugar.
Havia obviamente que contar com os grupos de afinidade que reuniam os activistas de mais idade, alguns com problemas de saúde (pulmões, ou de coluna), cujo papel estava reservado para as áreas mais tranquilas, ou então para fazer a interligação com os delegados de cada grupo, o que lhes poupava meio caminho, ou ainda para apoio à marcha do trabalho que conseguiu reunir milhares de pessoas no principal dia.
Nenhuma direcção centralizada poderia ter alguma vez coordenado toda as acções perante o caos que se instalou, tendo o nosso modo de nos organizar mostrado maior maleabilidade que a toda poderosa polícia. Nenhum líder teria conseguido convencer aquelas milhares de pessoas a enfrentarem as arremetidas policiais sob o efeito do gaz. lacrimogéneo, tendo isso só sido possível graças ao facto das pessoas tiverem livremente optado em adoptar as atitudes melhor apropriadas face à situação.
Os grupos de afinidade, os cluster e os conselhos de porta-vozes abrangidos pela DAN sempre tomaram as suas decisões por consenso – um procedimento que permite a cada um fazer-se ouvir e que obriga todos a respeitarem as opiniões dos minoritários. De facto, o consenso faz parte da sensibilização aos processos e procedimentos de não-violência.
Para nós, frise-se, consenso não significa o mesmo que unanimidade. O único princípio obrigatório era realmente as regras próprias da não-violência. Para além disso, foi dado ênfase à autonomia e à liberdade e à coordenação e não aos procedimentos conformistas nem às pressões de uns sobre outros.
Um exemplo bastará para ilustrar tudo isto. Uma das nossas estratégias de solidariedade foi justamente deixarmo-nos prender a fim de podermos utilizar a força do número para proteger as pessoas mais fragilizadas por inculpações mais graves, ou então terem por sido vítimas de um tratamento mais brutal. Acontece que ninguém foi pressionado para se deixar prender, e ninguém foi culpabilizado pelo facto de ter escolhido pagar uma caução para sair mais cedo da prisão. Todos sabemos que cada um tem as suas próprias necessidades, e a sua própria situação de vida, e o que era importante é que cada qual tivesse participado na acção de protesto segundo o nível e as modalidades que achasse mais convenientes. Se tivéssemos pressionado para que todos ficassem na prisão provavelmente haveria quem resistisse, outros que experimentariam algum ressentimento, e outros ainda sentir-se-iam manipulados.
Tal como fizemos, as pessoas sentiram-se livres e não manipuladas, tendo a grande maioria delas decidido elas próprias permanecer na prisão, e até alguns foram muito mais longe do que seria imaginável.
Escrevo este texto por duas razões. Em 1º ligar para mostrar a importância do DAN. Os seus coordenadores realizaram um difícil mas brilhante trabalho. Com efeito, aprenderam a aplicaram as lições dos últimos 20 anos de acção directa não-violenta, conseguindo gerar toda uma poderosa dinâmica contra uma não menos poderosa oposição. Uma tal dinâmica foi susceptível de transformar a vida mudando radicalmente o panorama político mundial, além de ter contribuído para a radicalização de toda uma nova geração. Em 2º lugar porque a verdadeira história do modo como as coisas se passaram permite apresentar e propor agora um novo modelo de acção a partir do qual os activistas se podem inspirar. Seattle não foi senão um começo.
Diante de nós fica a imensa tarefa de construir um movimento global que incomode e a finança e a indústria e contribua para a sua substituição por uma outra economia baseada na honestidade (fairness) e a justiça, uma economia saudável e um ambiente salubre, que garanta a protecção dos direitos humanos e esteja ao serviço da liberdade. Muitas campanhas estão à nossa frente. Devemos ter o direito de aprender com as lições dos nossos êxitos.

Starhwak

Internet: www.reclaiming.org






loading...

- Eu Fui A Lisboa Abraçar-te ( Texto De Leitura Altamente Recomendável)
Eu fui a Lisboa abraçar-te A ordem perturba mais do que a desordem. Quem quiser ver, a democracia está aí: converteu a política, toda a política, no confronto com a polícia. A política é hoje tudo aquilo que escapa ao sistema político-partidário....

- A Desobediência Civil Contra O Nuclear Na Alemanha, E Os Violentos Contra A Nato Em Portugal
Fonte: http://gaia.org.pt/ O transporte de resíduos nucleares reprocessados na central de reprocessamento de La Hague, demorou mais de 90 horas a fazer um percurso de 1500 km, até ao depósito de Gorleben, em Wendland, na Alemanha. Tratou-se do transporte...

- Activistas Portugueses Do Gaia Estão Em Rostock A Bloquear Cimeira Do G8
Activistas do GAIA ( associação ecologista portuguesa) estão neste momento na linha da frente a bloquear o portão 2 que dá acesso ao perímetro proibido, em Rostock. Estão mais de 10 000 pessoas em desobediência Civil NÃO VIOLENTA. Hoje, quarta-feira...

- Apelo Para Bloquear E Atacar O Capitalismo
O ciclo das últimas contra-cimeiras mostrou que nós ganhámos quando inventamos uma nova táctica em vez de procurarmos reproduzir as rituais confrontações do costume. No ano de 1999 em Seattle os capitalistas não esperavam uma tão larga mobilização...

- Os LadrÕes Do Tempo
Ano 20.311... ... no decorrer dos tempos a verdadeira natureza dos problemas ia-se revelando aos olhos alucinados da plebe. Um dos descobrimentos mais marcantes foi, sem dúvida, o episódio dos “ladrões do tempo”: Nos primeiros anos do...



Ciências Humanas e Sociais








.